Da insônia à narcolepsia, entrevista com Dr. Nonato

26 de julho de 2017

raimundo nonato 2

Apesar de atingir um número pequeno de pessoas, a narcolepsia é um distúrbio do sono com grande impacto social na vida de seus pacientes. De diagnóstico difícil e poucas alternativas de tratamento, a detecção precoce e o conhecimento da doença são fundamentais para melhorar a qualidade de vida de seus pacientes.

Dr. Nonato, um dos principais profissionais da medicina do sono no Brasil, traz esse e outros temas na entrevista abaixo, concedida à Neurovirutal em seu consultório em Brasília.

1.O Dr poderia se apresentar e contar um pouco da sua trajetória profissional?

Dr. Nonato: Eu entrei na medicina do sono há mais ou menos 30 anos, quando eu fazia residência em neurologia no serviço do professor Maurice, em Estrasburgo, e lá eu conheci quem viria a se tornar meu amigo, o professor Jean, que trabalhava com o sono desde a década de 70. Eu comecei a desenvolver o gosto pela medicina do sono progressivamente e fui me dedicando a ela numa época em que, não só no Brasil, mas sobretudo na cidade de Brasília, o sono era desconhecido. Eu estudei com professores europeus, com professores americanos, com professores canadenses, tive a alegria de trazer muitos deles a Brasília para participar conosco de congressos. Fiz o meu mestrado em sono em 1999, dentro da Universidade de Brasília, onde me tornei professor. Fiz também um doutorado, já na França, em 2004. De lá pra cá, a minha atividade profissional tem se concentrado praticamente exclusivamente dentro da medicina do sono.

2.A narcolepsia é uma doença pouco conhecida ou identificada pela população em geral, diferente da insônia ou outros transtornos de sono. Em muitos casos, pode ser confundida com cansaço repentino e até preguiça. Como identificar a situação patológica e que sintomas devem fazer o paciente procurar um médico?

Dr. Nonato: A narcolepsia é uma doença que atinge uma parcela muito pequena da população, cerca de 200 pacientes em 100.000. O grande problema é o impacto que ela tem na qualidade de vida em geral (pessoal, profissional e também acadêmica) e o paciente com narcolepsia vai procurar um médico sem saber o que ele tem exatamente. Existem estudos ingleses mostrando um atraso de até 8 anos no diagnóstico da narcolepsia. Durante esse período, o que costuma acontecer com esses pacientes é basicamente um insucesso profissional ou um insucesso acadêmico, que às vezes marca indelevelmente a vida deles. A narcolepsia tem como grande carro chefe, ataques de sono. São ataques irrepreensíveis, ataques irresistíveis, que pontuam o dia dos pacientes, sem que eles tenham controle. Eles podem também apresentar uma curiosa manifestação motora, que é a perda do tônus muscular durante momentos de alegria e então eles caem no chão, acordados, mas sem força, sem tônus na musculatura. Esses pacientes podem sofrer também alucinações na hora de dormir e acordar no meio da noite, paralisados. O grande problema é como lidar com esses pacientes a partir do momento do diagnóstico, já que nós não temos os recursos necessários para fazer o diagnóstico definitivo. Nós não podemos, por exemplo fazer dosagem de determinadas substâncias, que estão em falta no paciente com narcolepsia. Ainda é muito caro este tipo de procedimento, por isso é preciso que ainda façamos muita pesquisa e nos dediquemos mais ao tratamento desta doença.

3. Como é a evolução da doença? Há formas graves? Como é feito o diagnóstico?

Dr. Nonato: A evolução da narcolepsia, quando ela vem acompanhada do fenômeno cataplético, ou seja, falta de tônus muscular, pode ser de duas maneiras. A literatura relata que a sonolência excessiva, esses ataques de sono, vão permanecer com o paciente praticamente a vida toda. No entanto, ao longo do tempo e com a aposentadoria, por exemplo, o paciente parece que começa a lidar melhor com esses ataques de sono porque ele já pode dormir sem que seja um grande problema. O diagnóstico, no Brasil, é feito primeiramente com os dados clínicos e depois é solicitado um teste gráfico chamado teste de latência múltipla de sono, em que se dá cinco oportunidades ao paciente de dormir durante o dia e  nós observamos quanto tempo ele leva para dormir em cada uma dessas oportunidades, que são separadas de duas em duas horas. O paciente com narcolepsia frequentemente tem um tempo médio, que a gente chama de latência, pra entrar em sono, abaixo de oito minutos. Alguns deles tem abaixo de três minutos.

4. O sr. tem muitos artigos publicados sobre insônia. Informações recentes mostram que o Brasil tem batido recordes na venda de medicamentos para dormir. Em algumas regiões perdem apenas para os analgésicos. Qual o risco da automedicação para este tipo de problema e quando ele se torna grave?

Dr. Nonato: A insônia é um problema de saúde pública e dos mais frequentes dentro da medicina em geral. Muitas vezes, dormir mal ou não dormir é imediatamente atribuído, pelo paciente, a uma causa relativa à sua vida pessoal e ele raramente, de início, pensa que isso é uma doença. Por isso não procura, muitas vezes, o tratamento no momento que ele deveria. Outras vezes, ele busca medicações pensando que com isso ele vai ficar bem e vai dormir como ele costumava. O problema é que há uma ativação durante o sono de regiões do cérebro que controlam o sono e que controlam a vigília, simultaneamente. Ou seja, os neurônios que produzem sono e os neurônios que produzem vigília funcionam no cérebro do paciente com insônia, durante a noite, ao mesmo tempo. Como a vigília é fundamental para sobreviver, o cérebro acaba sendo dominado pela vigília, em detrimento do sono, e a pessoa não dorme. A questão é que a grande maioria das medicações usadas comumente para o tratamento da insônia, trabalham em cima da região do cérebro que produz sono, que está normal. A região que está defeituosa é a região que produz vigília demais, em momentos que não deveria. E para tratamento desta região, não existem muitas medicações. Mas nós temos terapia cognitivo comportamental específica para lidar com esses problemas de reeducação da área da vigília. Porque o paciente, à medida que passa o tempo com a insônia, ele desenvolve maus hábitos relacionados ao seu sono e faz com que o problema se perpetue. Muitas vezes nós somos obrigados a colocar, em associação com a terapia cognitivo comportamental, algum medicamento, porque a terapia não age imediatamente, mas quando a terapia faz o seu efeito, podemos retirar o medicamento.

Comentários 4

Deixe um comentário