Entrevista com Dra. Elza Yacubian

8 de outubro de 2015

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Considerado um importante distúrbio neurológico, a Epilepsia atinge adultos e crianças em todo o mundo, de diferentes idades e em diversas fases da vida. Segundo dados da OMS – Organização Mundial da Saúde, estima-se que cerca de 1 a 3% da população mundial seja afetada por esta doença.
A avaliação clínica realizada por profissionais especializados, o correto diagnóstico do tipo de Epilepsia e a definição do tratamento mais adequado são fundamentais para garantir qualidade de vida aos pacientes acometidos por este distúrbio.

Pra conhecer um pouco mais sobre a Epilepsia, o Neurovirtual News entrevistou a chefe da Unidade de Pesquisa e Tratamento das Epilepsias do Hospital São Paulo, Professora Dra. Elza Márcia Yacubian:

Profa. Elza Yacubian, o que é Epilepsia?
A Epilepsia é uma doença que se caracteriza pela ocorrência de crises epilépticas espontâneas ou provocadas por alguns estímulos, denominadas crises reflexas, como as provocadas por luz intermitente. De modo geral, podemos dizer que há crises focais, as quais envolvem redes neuronais restritas a uma região cerebral, geralmente decorrentes de lesões estruturais, e generalizadas, nas quais a hiperexcitabilidade neuronal é difusa e de causa possivelmente genética.

Qual é o conjunto de sintomas que permite a comprovação do diagnóstico
de Epilepsia?
O diagnóstico de Epilepsia é clínico e a história e a caracterização semiológica das crises epilépticas, conforme a descrição do paciente e de uma testemunha dos eventos, são fundamentais para o diagnóstico. Elas podem ser complementadas pelo registro eletroencefalográfico e exames de neuroimagem, estrutural e funcional.

Existe alguma pré-disposição genética para a ocorrência da Epilepsia nos
indivíduos, ou é algo adquirido através de eventos variados? Quais são os principais?
Sim, há um componente genético na Epilepsia. Esta é uma área na qual tem havido significativo avanço nas últimas décadas. Estudo de famílias com múltiplos indivíduos afetados tem permitido a descoberta de genes que determinam várias formas de Epilepsia. O estudo de famílias afetadas determina o risco de recorrência, o qual, para Epilepsias generalizadas é aumentado em 4 a 9 vezes; para Epilepsias focais em 2-3 e para crises febris em 3-5. Estudos de gêmeos atestam a concordância maior para Epilepsia em gêmeos monozigóticos em comparação aos dizigóticos. Para Epilepsias generalizadas (o,8 versus 0,3); para Epilepsias focais (0,4 versus 0,03) e para crises febris (0,6 versus 0,1).

Fisicamente, como se explica o dano no cérebro que caracteriza a Epilepsia?
As etiologias mais comuns das crises focais são áreas cicatriciais cerebrais (chamadas ‘gliose’), malformações do desenvolvimento cerebral, infecções, alterações vasculares, tumores, entre muitas outras.

Existe algum tipo de relação entre a Epilepsia e os distúrbios do sono?
Sim. O sono acentua a frequência de descargas epileptiformes na maioria das formas de Epilepsia. Crises focais são mais frequentes em períodos de relaxamento e sono. Crises generalizadas, por sua vez, são também chamadas ‘crises do despertar’ e costumam ocorrer até duas horas após o despertar, independente do horário do dia, sendo mais facilmente desencadeadas por privação de sono.

Quais os tipos de crises epiléticas mais desafiadoras, do ponto de vista fisiológico (localização / características no cérebro) e para definição do tratamento adequado?
Crises epilépticas são fenômenos complexos e todas elas nos oferecem significativos desafios. Além disto, suas expressões são dependentes da maturação cerebral.

Crises em lactentes são diferentes das crises de crianças e estas das de adultos, as quais também apresentam peculiaridades em idosos. A caracterização eletroclínica de cada uma destas formas exige considerável conhecimento especializado assim como de suas formas de investigação e de tratamento.

Quais são os procedimentos / protocolos recomendados para que seja realizado o diagnóstico conclusivo de Epilepsia?
Algumas vezes o diagnóstico clínico é suficiente. Muitas vezes o mesmo é fortalecido pelos achados eletroencefalográficos e de neuroimagem.

Existe tecnologia disponível no país para apoio aos médicos no diagnóstico adequado da Epilepsia?
Crises epilépticas são fenômenos elétricos e assim, muitos têm desenvolvido significativos esforços no desenvolvimento de sistemas de registro destes paroxismos elétricos nas últimas décadas. Há ainda uma necessidade imperiosa de aperfeiçoamento destes sistemas de registro para a expansão de serviços dedicados às centenas de milhares de brasileiros com crises epilépticas que deles necessitam neste país continente, a um custo acessível à nossa realidade.

Quais são os tratamentos mais indicados para o controle da Epilepsia?
São os fármacos antiepilépticos, os quais, a partir de 1912 com o advento do fenobarbital, mudaram significativamente as perspectivas de vida de pessoas com Epilepsia. O desenvolvimento de novos fármacos a partir de 1990 com perfis farmacocinéticos mais adequados, melhorou ainda mais as perspectivas terapêuticas. Não há como comparar a vida das pessoas com Epilepsia que viveram no século 19 com a das que vivem no século 21.

Em que casos são recomendados as cirurgias para tratamento?
Cirurgias são recomendadas para pessoas com crises epilépticas refratárias, definidas como a persistência de crises a despeito da utilização de dois fármacos antiepilépticos adequadamente prescritos pelo médico e usados pelo paciente. A indicação cirúrgica é dependente da localização precisa da zona epileptogênica e do balanço entre os riscos e benefícios esperados do procedimento cirúrgico.

Quantos centros especializados em Epilepsia existem atualmente no Brasil?
Há alguns, localizados principalmente nas regiões sul e sudeste os quais, apesar de terem possibilitado um significativo avanço na assistência, ensino e pesquisa em Epilepsia, estão ainda muito longe de permitirem o atendimento adequado dos brasileiros com Epilepsia que necessitam deles.

Qual deve ser a formação médica para o desenvolvimento de especialistas em Epilepsia?
A formação de um epileptologista é complexa e deve ser realizada após a residência de neurologia ou neuropediatria. Em geral, há necessidade de treinamento por pelo menos um ano para o aprendizado de eletroencefalografia e epileptologia clínica e pelo menos mais um ano de treinamento em Unidades de Monitorização de Epilepsia, nas quais são avaliados casos mais complexos.

Quais são os principais objetivos do departamento de pesquisa em Epilepsia da Unifesp?
A Unidade de Pesquisa e Tratamento das Epilepsias faz parte do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da UNIFESP. Congrega uma equipe multidisciplinar composta por epileptologistas (especialistas e em especialização), psiquiatras, neurocirurgiões, neuropsicológos, enfermeiros (os quais são técnicos em eletroencefalografia), assistentes sociais entre outros profissionais necessários para o desenvolvimento da assistência, ensino e pesquisa nesta especialidade do Departamento.

Existe alguma instituição que promove o desenvolvimento científico desta área no país?
A criação de Centros de Epilepsia pelo Ministério da Saúde no Brasil a partir de 1990 permitiu um avanço significativo em nossa especialidade, a qual é uma das áreas de pesquisa de maior destaque na Neurologia Brasileira. Seu valor é atestado por um grande número de pesquisas e publicações científicas internacionais.

Elza Márcia Yacubian
Professora Livre Docente do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da UNIFESP.
Chefe da Unidade de Pesquisa e Tratamento das Epilepsias do Hospital São Paulo.

 

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