Cuidados médicos e solidariedade em áreas remotas da Colômbia

30 de novembro de 2020

Como entregar de volta à sociedade um pouco dos benefícios recebidos durante a vida? Para o Dr. Andrés Quintana, médico especialista em neuropediatria, a resposta está na realização de expedições voluntárias a zonas rurais, distantes dos grandes centros, que carecem de cuidados profissionais e atenção médica.

Desde 2010, o médico realiza entre 4 a 6 expedições anuais, especificamente para a região do município de Bahia Solano, na Colômbia, onde presta atendimentos focados na atenção integral de pacientes pediátricos que possuem algum tipo de sintoma neurológico. Assim, muitas vezes, consegue atuar de forma preventiva, contando com o suporte da população local e professores de educação infantil, importantes figuras na identificação precoce de sinais neurológicos em seus alunos.

A Neurovirtual entrevistou o especialista, para obter mais detalhes sobre a origem do projeto e a importância de contar com o apoio de empresas como a Neurovirtual.

Neurovirtual News: Em primeiro lugar, queremos saber mais sobre você: diga-nos quando escolheu a medicina, em que área se especializou e como desenvolveu sua carreira ao longo dos anos.
Dr. Andrés Quintana:
Sou médico, formado na Universidade de Quindío, e me especializei em Neuropediatria na Universidade Nacional da Colômbia e na Liga Central Contra a Epilepsia, sob a supervisão de Dr. Carlos Medina Malo e Dr. Álvaro Izquierdo. Também sou antropólogo, pela Universidad de los Andes.

NN: Quando você iniciou essas expedições solidárias para atender populações com pouco ou nenhum acesso a medicamentos?
Dr. Andrés Quintana: Comecei em 2010, com foco no departamento de Chocó e nos municípios de Bahia Solano e Valle. Mais do que a falta de medicamentos, nosso atendimento está concentrado no atendimento integral ao paciente pediátrico com sintomas neurológicos.

NN: Quais regiões você costuma atender? São comunidades indígenas? Como é o processo de definição da região para receber o atendimento?
Dr. Andrés Quintana: Principalmente a população com deficiências cognitivas e motoras, como epilepsia. Às vezes contamos com o apoio de outros profissionais que têm colaborado conosco na assistência odontológica, psiquiátrica e pediátrica. Atendemos as comunidades afrodescendentes, Embera e Wonnan.

NN: Você tem o apoio de outras instituições ou do governo em suas expedições?
Dr. Andrés Quintana: Na maioria das vezes são realizadas com recursos próprios ou com a colaboração da indústria farmacêutica na doação de medicamentos ou passagens aéreas para alguns dos especialistas convidados. Em algumas ocasiões, o governo local colaborou com apoio em transporte e hospedagem, mas não há suporte constante das instituições estatais colombianas. Em grande parte, o trabalho é invisível, mas temos tentado torná-lo constante. Também contamos com contribuições de suprimentos e facilidades de pagamento para a aquisição de equipamentos de vídeo eletroencefalografia da Neurovirtual. Assim, a população pode se beneficiar dessa tecnologia colocada à disposição da comunidade.

NN: Como você obtém acesso a essas regiões remotas? Quais são os desafios que você costuma enfrentar até chegar ao seu destino?
Dr. Andrés Quintana: Chegamos à Bahia Solano de avião e, às vezes, para ir ao campo fazemos o trajeto de barco, moto, carro, canoa ou a pé, como em qualquer outro município rural deste país.

NN: Conte-nos sobre o trabalho que você faz nessas visitas: quais exames aplicados? Como é o processo educacional sobre epilepsia para crianças e adultos?
Dr. Andrés Quintana: Fazemos consultas especializadas e EEGs, além de treinar os professores para a identificação precoce das patologias neurológicas infantis. Os professores são, em grande parte, os identificadores dessas situações específicas, por morarem próximo às famílias das crianças e entenderem muito bem a população. Fazemos tudo isso de maneira totalmente gratuita, tanto as consultas à comunidade quanto a capacitação de professores, médicos e a realização de exames de eletroencefalografia.

NN: Quais equipamentos Neurovirtual você carrega nesses trabalhos e como eles o ajudam com sua assistência?
Dr. Andrés Quintana: Desde 2012, utilizamos o BWII EEG. Entre 2016 e 2017, empregamos o BWIII EEG e agora o BWMini EEG. Interruptamente, contamos com o suporte técnico remoto da Neurovirtual que nos permite superar imprevistos mesmo estando em áreas longínquas do país.

NN: Qual a importância de democratizar o acesso à informação e ao diagnóstico em comunidades mais remotas?
Dr. Andrés Quintana: Essa pandemia nos ensinou que mesmo estando em uma cidade, a restrição de mobilidade (algo que os habitantes das periferias do país já vivenciavam antes dessa nova realidade) nos impõe a necessidade de assistência remota, independementemente da distância física geográfica. Por isso, acredito e atesto que o teleatendimento e o acesso às tecnologias não são apenas necessários, mas também nos definem como comunidade científica a partir deste ano.

NN: Como a pandemia mudou sua dinâmica de atendimento a essas regiões?
Dr. Andrés Quintana: Ainda não conseguimos voltar, estamos esperando a situação melhorar.

NN: Quantas expedições a comunidades carentes você já fez na sua vida?
Dr. Andrés Quintana: Costumava realizar entre 4 a 6 por ano, desde 2010. Paramos em 2018 e 2019, enquanto estava realizando meus estudos sobre epilepsia, mas voltamos em fevereiro de 2020.

NN: Na sua opinião, qual é o principal legado que você deixa nessas comunidades?
Dr. Andrés Quintana: A verdade, e sem soar clichê, é que são eles que têm marcado à minha maneira de enxergar a atividade profissional e meu trabalho junto as comunidades. Sou formado em duas universidades públicas e acredito que tenho algo que pode ser devolvido ao país.

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