{"id":783278,"date":"2022-01-31T11:11:00","date_gmt":"2022-01-31T14:11:00","guid":{"rendered":"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/?p=783278"},"modified":"2022-02-24T16:48:44","modified_gmt":"2022-02-24T19:48:44","slug":"entrevista-com-o-medico-espanhol-dr-javier-puertas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/entrevista-com-o-medico-espanhol-dr-javier-puertas\/","title":{"rendered":"Entrevista com o Dr. Javier Puertas, PhD &#8211; Chefe do Departamento de Neurofisiologia Cl\u00ednica e Unidade do Sono, Hospital Universit\u00e1rio La Ribera, Espanha"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Dr.-Javier-Puertas.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Dr.-Javier-Puertas.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-814726\" width=\"207\" height=\"308\" srcset=\"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Dr.-Javier-Puertas.jpg 300w, https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Dr.-Javier-Puertas-201x300.jpg 201w, https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Dr.-Javier-Puertas-168x250.jpg 168w, https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Dr.-Javier-Puertas-228x340.jpg 228w\" sizes=\"(max-width: 207px) 100vw, 207px\" \/><\/a><figcaption>F Javier Puertas MD, PhD \u2013 Head, Department of Clinical Neurophysiology and Sleep Unit, La Ribera University Hospital, Alzira<br><br><br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><em>&#8220;Acredito na telemedicina e nas novas tecnologias para oferecer um melhor tratamento\u201d<\/em><\/h2>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><br>Em entrevista \u00e0 Neurovirtual, o m\u00e9dico espanhol Javier Puertas compartilha seus pontos de vista sobre dist\u00farbios do sono, diagn\u00f3stico, qualidade de vida, impacto do clima no sono e outras perspectivas.<\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-background has-cyan-bluish-gray-background-color has-cyan-bluish-gray-color\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>NN: A unidade de sono do Hospital Universidad La Ribera \u00e9 uma refer\u00eancia neste campo na Espanha. Como ela funciona e quais s\u00e3o os principais diferenciais desta unidade?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dr. Puertas: A unidade de sono do Hospital La Ribera abriu h\u00e1 uns 18 anos, em 1999, j\u00e1 desde o in\u00edcio com uma vontade de que houvesse colabora\u00e7\u00e3o em diferentes especialidades, como em outros pa\u00edses europeus ou nos Estados Unidos, e onde o laborat\u00f3rio de sono, o lugar f\u00edsico das camas e dos laborat\u00f3rios de polissonografia estivessem em um entorno onde houvesse uma colabora\u00e7\u00e3o de especialidades, principalmente em neumologia, neurofisiologia, pediatria, onde os pacientes fossem analisados com outros companheiros semanalmente ou a cada duas semanas, e onde o estudo de sono fosse mais uma parte do processo de diagn\u00f3stico e do tratamento do paciente, de tal forma que n\u00e3o somente se iniciasse um teste e voltasse ao m\u00e9dico para obter uma coordena\u00e7\u00e3o e um seguimento e coment\u00e1rio por parte dos especialistas implicados. Al\u00e9m de ser uma unidade que, quando abriu, era das maiores da Espanha porque t\u00ednhamos quatro camas funcionando todas as noites da semana. Essa talvez seja uma das coisas que mais nos distinguiu.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Dr. Javier Puertas - Jefe de neurofisiologia y sue\u00f1o Hospital Universit\u00e1rio la Ribeira, Valencia.\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qKydkokCJy0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>NN: Nos Estados Unidos existe desde 2007 uma subespecialidade para a medicina do sono. Como voc\u00ea v\u00ea o desenvolvimento profissional da medicina do sono na Europa?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;<\/strong>Dr. Puertas: Desde cedo, na Europa, houve um reconhecimento da medicina do sono como uma subespecialidade na Alemanha, no final dos anos 90, mas \u00e9 verdade que no resto da Europa depois n\u00e3o se desenvolveu este aspecto. Nos Estados Unidos, saiu no ano de 2007 o reconhecimento dela como uma subespecialidade. Recentemente, na Europa e outros pa\u00edses, especialmente na Fran\u00e7a, a medicina do sono tem sido reconhecida como subespecialidade, similar ao que havia ocorrido na Alemanha e nos Estados Unidos. Nasce uma subespecialidade que se pode prover de outras especialidades, principalmente da neurologia, da psiquiatria, da neumologia, medicina interna, pediatria, da otorrinolaringologia, etc. Creio que isto crie um segundo plano, que um pa\u00eds europeu como a Fran\u00e7a vir a conhecer a medicina do sono depois da Alemanha possa ser um aspecto muito importante para que em outros pa\u00edses europeus, como Espanha, It\u00e1lia, etc, tamb\u00e9m as autoridades sanit\u00e1rias a reconhe\u00e7am como uma \u00e1rea de conhecimento, quer dizer, como uma disciplina m\u00e9dica que vai favorecer a obten\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o integrada dos transtornos de sono do paciente para al\u00e9m da vis\u00e3o parcial que possam ter algumas especialidades, ent\u00e3o eu acredito que na Espanha e em outros pa\u00edses europeus, sobretudo a n\u00edvel da Uni\u00e3o Europeia, possa haver um avan\u00e7o r\u00e1pido no reconhecimento da medicina do sono enquanto uma subespecialidade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>NN: Voltando \u00e0 unidade de sono do Hospital La Ribera, voc\u00eas t\u00eam realizado estudos profundos e ensaios cl\u00ednicos que contribuem para o desenvolvimento de medicamentos para transtornos do sono como a ins\u00f4nia, a s\u00edndrome das pernas inquietas, etc. Quais s\u00e3o os resultados recentes desses estudos que voc\u00eas t\u00eam feito, e voc\u00eas t\u00eam acompanhado os resultados dos medicamentos que est\u00e3o sendo testados no momento?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;<\/strong>Dr. Puertas: Felizmente, temos podido colaborar em diversos ensaios cl\u00ednicos sobre f\u00e1rmacos para alguns transtornos do sono e a verdade \u00e9 que estamos vendo como, depois de alguns anos, sempre tem havido uma certa redu\u00e7\u00e3o da velocidade no que concerne a solu\u00e7\u00e3o do desenvolvimento das medica\u00e7\u00f5es. H\u00e1 novamente outro novo grupo de mol\u00e9culas em medicamentos que est\u00e3o em fase de estudo, e temos podido comprovar verdadeiramente que tanto no que concerne a ins\u00f4nia quanto as pernas inquietas, bem como narcolepsia ou hipersonia ap\u00e1tica, tanto nos estudos de alguns anos atr\u00e1s como nos estudos com os quais tivemos mais experi\u00eancia recentemente, h\u00e1 um grupo muito importante de mol\u00e9culas de novos f\u00e1rmacos que podem ajudar muito pacientes com transtornos do sono, principalmente no \u00e2mbito, por exemplo, da ins\u00f4nia, pela apari\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas que atuam com mecanismos distintos ao efeito grama, como s\u00e3o os antagonistas das hipocretinas. Com rela\u00e7\u00e3o &nbsp;a s\u00edndrome das pernas inquietas, encontramos um grupo importante de ensaios cl\u00ednicos que est\u00e3o observando como o ferro intravenoso, por exemplo, est\u00e1 ajudando pacientes que respondem mal a outros medicamentos. No momento, tamb\u00e9m ajudamos a desenvolver alguns antagonistas epil\u00e9ticos e atualmente h\u00e1 uma s\u00e9rie de ensaios sobre novos f\u00e1rmacos para melhorar a sonol\u00eancia da narcolepsia, como \u00e9 o caso dos antagonistas inversos do receptor H3 da histamina, que podem ajudar pacientes com narcolepsia, e que t\u00eam resposta parcial, e podem servir de complemento a outros f\u00e1rmacos para a narcolepsia.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>NN: Voc\u00ea \u00e9 membro do conselho da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Medicina do Bom-sono, al\u00e9m de outras sociedades como a europeia \u2013 um grande especialista na \u00e1rea do sono. Como voc\u00ea v\u00ea a evolu\u00e7\u00e3o dos estudos e tratamentos sobre transtornos do sono no mundo? H\u00e1 um tipo de estudo que seja mais frequente ou em uma especialidade espec\u00edfica?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Dr. Puertas: Bem, eu creio que a percep\u00e7\u00e3o dos transtornos de sono tem mudado nos \u00faltimos anos, deixando de ser uma quest\u00e3o considerada um pouco estranha ou esquisita nos hospitais, como era antes, e principalmente a sensa\u00e7\u00e3o de gravidade que os transtornos de sono tinham na popula\u00e7\u00e3o em geral e nos m\u00e9dicos de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria tem mudado. Ultimamente, em minhas consultas, estou recebendo muitos pacientes com transtornos de sono, encaminhados por cl\u00ednicos gerais, \u00e0s vezes com sintomas que come\u00e7aram muito recentemente, o que me d\u00e1 a impress\u00e3o de que os m\u00e9dicos de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria est\u00e3o perguntando cada vez mais sobre dist\u00farbios de sono para a popula\u00e7\u00e3o em geral. O que ocorre? Essa mudan\u00e7a tem uma parte boa e uma parte dif\u00edcil. A boa \u00e9 que o sono est\u00e1 come\u00e7ando a ser visto como um problema de sa\u00fade importante e isso \u00e9 bom, porque o sono \u00e9 um fator importante na qualidade de vida e na sa\u00fade em geral. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que, dado que os transtornos de sono em geral, como a ins\u00f4nia, a s\u00edndrome da apneia do sono e as pernas inquietas, s\u00e3o transtornos muito comuns, come\u00e7amos a perceber que h\u00e1 uma grande press\u00e3o assistencial nas unidades de sono dos hospitais p\u00fablicos. Isso possui v\u00e1rios aspectos, isso significa que as unidades de sono dos hospitais precisam come\u00e7ar a fazer uma campanha ou a\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o para os cl\u00ednicos gerais, para ajud\u00e1-los a manejar os transtornos do sono, porque n\u00e3o podemos receber em nossas unidades de sono toda a popula\u00e7\u00e3o que possui patologia de sono, ou pelo menos n\u00e3o podemos acolh\u00ea-las diretamente, e isso tamb\u00e9m, a m\u00e9dio prazo, creio que far\u00e1 com que as autoridades sanit\u00e1rias se deem conta de que o sono \u00e9 um problema de sa\u00fade que gera uma demanda assistencial e \u00e9 certo que, apesar de ser dif\u00edcil que as unidades de sono cres\u00e7am muito na Europa, como ocorreu nos Estados Unidos \u2013 onde h\u00e1 unidades de sono com 20 camas ou 20 quartos \u2013, \u00e9 verdade que temos que buscar meios para poder diagnosticar ou facilitar o diagn\u00f3stico ambulat\u00f3rio; e eu acredito que a\u00ed a telemedicina pode facilitar tanto o diagn\u00f3stico como o tratamento dos pacientes, porque sinceramente n\u00e3o podemos ter unidades de sono cada vez maiores no hospital, e para tal temos que buscar formas de trabalhar em rede com os m\u00e9dicos de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, para poder dar um diagn\u00f3stico e tratamento aos pacientes. Creio que \u00e9 por isso que n\u00f3s, m\u00e9dicos que trabalhamos com a medicina do sono, esperamos que a telemedicina e as tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o nos tragam uma maior facilidade de alcan\u00e7ar mais pacientes e poder oferecer um melhor tratamento, e para tal as empresas que est\u00e3o trabalhando em novas t\u00e9cnicas diagn\u00f3sticas ter\u00e3o tamb\u00e9m que sair um pouco do que \u00e9 o \u00e2mbito hospitalar de diagn\u00f3stico e buscar outros par\u00e2metros, diagn\u00f3sticos como os algor\u00edtimos, que nos ajudem a ver a frequ\u00eancia card\u00edaca, a temperatura corporal e outros sintomas. E quando tivermos tecnologias que nos permitam analisar muitos dados, poderemos integr\u00e1-las aos estudos de sono, para poder ter uma melhor percep\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 o sono saud\u00e1vel para os pacientes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>NN: Em porcentagem de popula\u00e7\u00e3o, focando-se principalmente na Espanha, qual \u00e9 a porcentagem de pessoas que seguem padecendo de transtornos de sono sem nunca sequer terem sido diagnosticadas pois nunca foram encaminhadas pelos cl\u00ednicos gerais a um especialista?<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dr. Puertas: Nossa impress\u00e3o, e cremos que a impress\u00e3o na Espanha \u00e9 semelhante, \u00e9 que n\u00e3o temos argumentos ou elementos para pensar que seja diferente de outros pa\u00edses. Basicamente, a metade da popula\u00e7\u00e3o em geral possui algum transtorno de sono, e essa metade da popula\u00e7\u00e3o geral, no \u00faltimo ano, tem requerido uma aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica cont\u00ednua, mas obviamente estamos falando, em termos gerais, de 20% da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 pouco prov\u00e1vel que estejamos dando acesso ao hospital a menos de 2, 3, 4, 5% da popula\u00e7\u00e3o, contando pacientes com ins\u00f4nia, com apneia do sono, com narcolepsia, com parassonias, e assim temos uma porcentagem que pode ser de 15 a 20% da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 esperando para que possamos lhes dar uma possibilidade de aten\u00e7\u00e3o e ajuda com seu problema de sono.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>NN: H\u00e1 algum tipo de transtorno que seja mais frequente em alguma regi\u00e3o espec\u00edfica da Espanha?&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dr. Puertas: Temos feito alguns estudos com dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Por exemplo, temos percebido que, nas regi\u00f5es do norte da Espanha, se consome mais hipn\u00f3ticos do que nas regi\u00f5es do sul; ainda n\u00e3o sabemos se \u00e9 porque h\u00e1 menos luz, porque faz mais frio, e n\u00e3o sabemos muito bem a raz\u00e3o pela qual essas regi\u00f5es t\u00eam um consumo de medicamentos para dormir que corresponde a um ter\u00e7o, quase o dobro das regi\u00f5es do sul. Tamb\u00e9m se tratam de regi\u00f5es mais desenvolvidas, em termos socioecon\u00f4micos, por isso n\u00e3o sabemos se \u00e9 por haver mais estresse ou mais facilidade de acesso \u00e0 medicina geral, mas, bem, na realidade a Espanha n\u00e3o \u00e9 muito diferente de outros pa\u00edses ocidentais. Temos um problema: o estresse. Obviamente, as cidades e a crise t\u00eam gerado mais ins\u00f4nia, mas uma explica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m verdadeira \u00e9 aquela em termos da obesidade da popula\u00e7\u00e3o em geral, pois n\u00e3o s\u00f3 afeta a adultos como \u00e0s vezes tamb\u00e9m a crian\u00e7as. Temos uma porcentagem de potenciais pacientes com apneia de sono associada ao sobrepeso, etc. Isso se v\u00ea muito em pa\u00edses em desenvolvimento; o M\u00e9xico, em particular, tem a maior porcentagem de obesidade infantil do mundo\u2026 Claro, observamos assim que a apneia do sono das crian\u00e7as tem passado, de um perfil de hipertrofia e am\u00edgdalas, ao perfil de crian\u00e7a obesa. O tratamento e o fator de risco de cada uma dessas crian\u00e7as \u00e9 diferente, porque, claro, uma crian\u00e7a pequena, menor de 6 anos, e com hipertrofia \u00e9 operada se h\u00e1 indica\u00e7\u00e3o de que tem apneias, mas percebemos que, claro, uma crian\u00e7a de 7, 8, 9 ou 10 anos, obesa, com muitas apneias, \u00e0s vezes necessita de um CPAP.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>NN: Sabe-se que as sociedades mais desenvolvidas t\u00eam um maior \u00edndice de pessoas com dist\u00farbios do sono. Voc\u00ea acredita que h\u00e1 alguma explica\u00e7\u00e3o para isso?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dr. Puertas: Eu acredito que existem v\u00e1rios fatores que influenciam claramente, quer dizer, as sociedades mais industrializadas t\u00eam uma porcentagem maior da popula\u00e7\u00e3o que trabalha em per\u00edodos noturnos. Quanto mais industrializada for uma sociedade, mais se exigir\u00e1 da popula\u00e7\u00e3o um servi\u00e7o de 24 horas ou 24\/7. Por outro lado, as sociedades mais urbanizadas tamb\u00e9m utilizam mais tempo para ir do trabalho para a casa e a maioria dos trabalhos muitas vezes s\u00e3o sedent\u00e1rios e n\u00e3o ao ar livre, sendo esses fatores que, por um lado, reduzem o sono, porque passamos muito tempo do trabalho at\u00e9 em casa no transporte e dormimos menos,&nbsp;al\u00e9m disso muitos trabalhos s\u00e3o sedent\u00e1rios. Dormir menos tem j\u00e1 um impacto metab\u00f3lico, favorece a obesidade e fazemos menos exerc\u00edcios,&nbsp; gastamos muito tempo no carro e no trabalho. Por outro lado, n\u00f3s tamb\u00e9m nos expomos menos \u00e0 luz natural. Desde que sa\u00edmos de nossa casa, entramos na garagem da nossa casa sem sequer ver a luz do dia, apenas andamos, pegamos o carro, vamos ao trabalho, onde geralmente h\u00e1 um estacionamento, colocamos o carro no estacionamento e, \u00e0s vezes, sem sair para a rua, subimos para o trabalho sem sequer ver a luz e durante a maior parte do trabalho, muitas vezes, estamos expostos a luz artificial. Essa s\u00e9rie de h\u00e1bitos \u00e9 toda tremendamente prejudicial, n\u00e3o s\u00f3 para a sa\u00fade, mas tamb\u00e9m para o sono, se compararmos com aquilo para o qual nosso organismo foi programado, sejamos n\u00f3s uma sociedade agr\u00edcola, ou bem uma sociedade ca\u00e7adora, temos que em ambos os casos n\u00f3s \u00e9ramos sociedades nas quais t\u00ednhamos exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz ambiente e atividade f\u00edsica associada ao trabalho. Al\u00e9m dessa mudan\u00e7a nas sociedades industrializadas, estamos tamb\u00e9m em lugares que s\u00e3o ruidosos, vivemos em edif\u00edcios, com ruas, com autom\u00f3veis, com ru\u00eddo ambiente, quando n\u00e3o em aeroportos ao lado de rodovias. Est\u00e1 comprovado, por exemplo, que o nosso organismo, durante o primeiro ano em que vivemos ao lado de um aeroporto, em nosso eletroencefalograma do sono ocorrem pequenos despertares quando um avi\u00e3o chega. No segundo ano, esses despertares diminuem, mas a reatividade card\u00edaca persiste, e nunca nos adaptamos totalmente ao ru\u00eddo ou a um ambiente potencialmente amea\u00e7ador, porque \u00e9 algo fisiol\u00f3gico. Portanto, temos um n\u00famero de elementos em nosso ambiente que dificultam em conjunto, n\u00e3o isolados. Porque, que estresse tinham nossos antepassados \u200b\u200bdo paleol\u00edtico quando um urso os perseguia, n\u00e3o? Mas se tomamos em conjunto a falta de exerc\u00edcio, a falta de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz, o sedentarismo, dormir em um ambiente barulhento etc., temos assim um conjunto de fatores que n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam um impacto sobre a nossa qualidade de vida, mas tamb\u00e9m na nossa qualidade de sono. Portanto, eu acho que temos que levar em conta estes fatores, na medida em que n\u00f3s vivemos em um ambiente urbano, se vivemos industrializados, ent\u00e3o temos de tentar melhorar como n\u00f3s podemos. Se vivemos em um ambiente urbano, isto \u00e9, devemos evitar, quando chegamos em casa depois do trabalho, a tecnologia, a luz dos tablets, o excesso de tecnologia, de televis\u00e3o, de luzes artificiais. Devemos permitir que, ao ir dormir, tenhamos um per\u00edodo de desconex\u00e3o do estresse no trabalho, melhoremos as rela\u00e7\u00f5es familiares, a comunica\u00e7\u00e3o humana no seio da fam\u00edlia, ou seja, gerar um h\u00e1bito que quebre um pouco essa vida artificial que temos nas cidades. Cada um sabe um pouco sobre como fazer isso.&nbsp; \u00c0s vezes, quem trabalha em per\u00edodos noturnos n\u00e3o pode evitar de perturbar seu sono, mas \u00e9 sim verdade que temos de levar isso um pouco em conta para adquirir alguns h\u00e1bitos de higiene de vida como, por exemplo, evitar o \u00e1lcool antes de deitar, evitar voltar do trabalho expondo-se \u00e0 luz do amanhecer. \u00c0s vezes, voltar do trabalho noturno com \u00f3culos de sol facilita que durmamos em casa de manh\u00e3 com cortinas e uma m\u00e1scara, etc. Ou seja, temos que individualizar um pouco esses casos, mas, de forma geral, assumimos h\u00e1bitos de vida que s\u00e3o prejudiciais \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>NN: Voc\u00ea recentemente deu uma entrevista sobre as dificuldades para dormir quando o tempo est\u00e1 muito quente. Como o clima afeta a qualidade do sono?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dr. Puertas: Sabemos que existe uma rela\u00e7\u00e3o importante entre a regula\u00e7\u00e3o da temperatura corporal e a qualidade do sono, isto \u00e9, para dormir bem, especialmente na primeira metade da noite, o nosso organismo precisa que a temperatura interna do corpo diminua. Para isso, precisamos que a temperatura perif\u00e9rica da pele aumente, porque \u00e9 a forma como os nossos p\u00e9s e m\u00e3os agem como antenas para a troca de calor com o ambiente e, portanto, especialmente as senhoras, as mulheres, sabem que n\u00e3o se pode dormir com os p\u00e9s e as m\u00e3os frios, por isso nossas av\u00f3s dormiam com bolsas de \u00e1gua quente na cama, quando n\u00e3o havia aquecimento ou ar condicionado. Ent\u00e3o, quando temos uma diferen\u00e7a de temperatura baixa entre nosso corpo e o exterior, eliminamos mal o calor e, na medida em que eliminamos mal o calor, a profundidade do nosso sono \u00e9 menor. Portanto, \u00e9 mais dif\u00edcil dormir \u00e0 noite em ambientes quentes e \u00famidos, porque temos uma regula\u00e7\u00e3o da temperatura corporal pior e, portanto, o nosso sono se torna mais superficial. A outra quest\u00e3o \u00e9 o inverno, ou seja, se tivermos m\u00e3os e p\u00e9s frios n\u00e3o vamos ser capazes de dormir profundamente. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que, com a idade, a regula\u00e7\u00e3o da temperatura corporal torna-se menos eficaz, por isso \u00e9 um dos fatores que acreditamos estar associado ao deterioramento da qualidade do sono conforme envelhecemos. Por outro lado, tamb\u00e9m sabemos que os n\u00edveis de melatonina, um horm\u00f4nio relacionado \u00e0 qualidade do sono, diminuem com a idade. \u00c0 noite, quanto maiores forem os picos de melatonina, melhor ser\u00e1 a profundidade do sono. Mas a melatonina tamb\u00e9m ajuda a produzir a dilata\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica das m\u00e3os e dos p\u00e9s, o que nos ajuda a eliminar calor, por isso que, \u00e0s vezes, tomar melatonina nos ajuda a descansar. Em parte, pelo efeito da melatonina, mas tamb\u00e9m porque ela nos ajuda a regular a temperatura corporal. Portanto, existe uma rela\u00e7\u00e3o importante entre o que \u00e9 a regula\u00e7\u00e3o da temperatura corporal e a temperatura ambiente. Se esta \u00e9 pr\u00f3xima de 30\u00b0 e h\u00e1 um grau significativo de umidade ambiente que nos impede de eliminar calor, vamos dormir mal.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>&nbsp;<\/strong><strong>NN: Isso a curto prazo, uma noite, duas noites, mas a longo prazo, o calor estendido, por exemplo, em um lugar como o Norte da \u00c1frica, ou mesmo na Fl\u00f3rida, onde o tempo todo est\u00e1 quente, este calor constante pode ajudar a desenvolver um dist\u00farbio do sono espec\u00edfico?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dr. Puertas: A longo prazo, n\u00e3o h\u00e1 estudos que nos indiquem que viver em um clima ou outro afete o sono. \u00c9 verdade que nesta vida o contraste ajuda todos os ritmos biol\u00f3gicos, porque os ritmos biol\u00f3gicos se desenvolveram a partir da rota\u00e7\u00e3o da Terra, dos ciclos de luz-escurid\u00e3o. Assim, o contraste calor-frio \u00e0 noite tamb\u00e9m ajuda a dormir bem, mas n\u00e3o podemos dizer ainda porque verdadeiramente o corpo humano tem uma capacidade de adapta\u00e7\u00e3o incr\u00edvel, isto \u00e9, nos encontramos desde os b\u00e9rberes do Saara, que se cobrem com uma t\u00fanica, at\u00e9 os esquim\u00f3s. Estamos em condi\u00e7\u00f5es de temperatura extremas, mas n\u00e3o temos nenhuma evid\u00eancia de que isso produza um efeito a longo prazo na qualidade do sono, e acreditamos que \u00e9 porque o organismo \u00e9 capaz de se adaptar a quase todas as situa\u00e7\u00f5es do planeta Terra.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>NN: Existe algum tipo de contra-indica\u00e7\u00e3o quando est\u00e1 muito frio, que pode causar algum dano ao sono? Voc\u00ea nos disse que deve haver diferen\u00e7a da temperatura do corpo.&nbsp; Quando est\u00e1 muito frio, h\u00e1 qualquer dano ao sono?<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dr. Puertas: O frio produz vasoconstri\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, ou seja, para n\u00e3o esfriarmos demais e n\u00e3o perder calor, nossas art\u00e9rias da pele se contraem e evitam o sangue de chegar de forma significativa na pele, para que nenhum calor se perca. Danos significativos n\u00e3o existem. O que acontece \u00e9 que o sono vai ser de uma qualidade inferior em temperaturas extremas. A temperatura ideal para dormir deve ser uma temperatura entre 18\u00b0 e 20\u00b0 e em um ambiente n\u00e3o muito \u00famido. Nem sempre \u00e9 f\u00e1cil conseguir isso, mas o que recomendamos \u00e9 n\u00e3o dormir a noite toda com ar condicionado artificial, porque isso acaba gerando problemas de secura das mucosas e algumas pessoas acordam logo com algum problema de irrita\u00e7\u00e3o da faringe. Cada vez mais, sabemos que estes ventiladores de teto, que h\u00e1 em pa\u00edses tropicais, que giram lentamente durante a noite, facilitam mais o sono do que deixar o ar condicionado ligado toda a noite, mas n\u00e3o h\u00e1 estudos. \u00c9 uma evid\u00eancia emp\u00edrica de que nesses pa\u00edses mais \u00famidos e mais tropicais \u00e9 mais frequente se ver no teto dos quartos um ventilador que move muito devagar. Assim, o ar em movimento ajuda um pouco a equilibrar o calor corporal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Acredito na telemedicina e nas novas tecnologias para oferecer um melhor tratamento\u201d Em entrevista \u00e0 Neurovirtual, o m\u00e9dico espanhol Javier Puertas compartilha seus pontos de vista sobre dist\u00farbios do sono, diagn\u00f3stico, qualidade de vida, impacto do clima no sono e outras perspectivas. 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