{"id":775089,"date":"2016-10-27T11:21:26","date_gmt":"2016-10-27T13:21:26","guid":{"rendered":"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/?p=775089"},"modified":"2020-02-19T19:04:52","modified_gmt":"2020-02-19T22:04:52","slug":"775089","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/775089\/","title":{"rendered":"Em entrevista, o Dr. Daniel Perez Chada, explica a pesquisa sobre cansa\u00e7o e sonol\u00eancia em motoristas profissionais na Argentina"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/banner-peres-ptg.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-775094 size-full\" src=\"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/banner-peres-ptg.jpg\" alt=\"banner-peres-ptg\" width=\"805\" height=\"219\" srcset=\"https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/banner-peres-ptg.jpg 805w, https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/banner-peres-ptg-300x82.jpg 300w, https:\/\/neurovirtual.com\/br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/banner-peres-ptg-460x125.jpg 460w\" sizes=\"(max-width: 805px) 100vw, 805px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Neurovirtual News: Doutor, o senhor poderia nos contar um pouco sobre sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Perez Chada:<\/strong>\u00a0Sou m\u00e9dico pneumologista e trabalho no Hospital Universit\u00e1rio Austral, onde sou respons\u00e1vel pelo servi\u00e7o de pneumologia e da Cl\u00ednica do Sono e, desde outubro de 2016, sou Presidente da <em>Fundaci\u00f3n Argentina del Sue\u00f1o.<\/em><\/p>\n<p>Durante muitos anos trabalhei na terapia intensiva, com especial interesse em insufici\u00eancia respirat\u00f3ria e ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica. Completei minha forma\u00e7\u00e3o na Gr\u00e3-Bretanha, onde trabalhei na pesquisa fundamental sobre ventila\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica e les\u00e3o pulmonar. Com o passar do tempo meu interesse focou-se na ventila\u00e7\u00e3o n\u00e3o-invasiva \u00a0e, nos \u00faltimos 15 anos, tenho dedicado 80% do meu tempo a estudar transtornos respirat\u00f3rios durante o sono.<\/p>\n<p><strong>NN: Doutor,\u00a0o senhor poderia nos contar sobre os estudos e servi\u00e7os oferecidos pela Cl\u00ednica do Sono do Hospital Universit\u00e1rio Austral?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC:<\/strong> No Hospital Universit\u00e1rio Austral existe uma equipe que estuda pacientes com transtornos do sono e focamos, principalmente, nos dist\u00farbios respirat\u00f3rios durante o sono. Contamos com uma Cl\u00ednica do Sono equipada com cinco camas para avaliar pacientes atrav\u00e9s da aplica\u00e7\u00e3o de polissonografia noturna e oito aparelhos para a realiza\u00e7\u00e3o dos estudos poligr\u00e1ficos ambulatoriais.<\/p>\n<p>Nosso grupo \u00e9 muito ativo, ocorrendo constante intera\u00e7\u00e3o entre os membros da equipe. Existe tamb\u00e9m um intenso interc\u00e2mbio com os demais servi\u00e7os prestados pelo hospital, dessa maneira, \u00e9 poss\u00edvel resolver a maior parte dos problemas de apneia do sono que acometem nossos pacientes.<\/p>\n<p><strong>NN: Doutor, o senhor poderia nos explicar um pouco acerca da pesquisa desenvolvida, sobre cansa\u00e7o e sonol\u00eancia<\/strong> <strong>presentes<\/strong> <strong>em motoristas profissionais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC:<\/strong> Esse tem sido um tema de pesquisa que nos interessa h\u00e1 dez anos devido a seu enorme impacto social. Temos realizado um trabalho interdisciplinar, contando com pesquisadores b\u00e1sicos, sobretudo, com estudiosos do CONICET, que na Argentina \u00e9 a principal entidade promotora de pesquisas cient\u00edficas e t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>Formamos um grupo liderado pelo Dr. Daniel Cardinali, fisi\u00f3logo prestigiado, com quem estudamos a rela\u00e7\u00e3o entre o d\u00e9ficit do sono dos motoristas profissionais e a deteriora\u00e7\u00e3o do seu n\u00edvel de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O estudo iniciou analisando os motoristas de caminh\u00e3o, situados no Mercado Central, da cidade de Buenos Aires. Esses indiv\u00edduos s\u00e3o trabalhadores independentes que levam e trazem as mercadorias indo e voltando da cidade de Buenos Aires desde distintos pontos do pa\u00eds. Neles encontramos uma alta preval\u00eancia de ronco, que como era de se esperar, estava associado a obesidade.<\/p>\n<p>Essas pessoas eram portadoras de hipertens\u00e3o e sofriam uma severa restri\u00e7\u00e3o das horas de sono, uma vez que dormiam n\u00e3o mais do que quatro horas por noite ao longo da semana e, aos finais de semana, acabavam compensando sua d\u00edvida de sono. Eram indiv\u00edduos que compunham uma\u00a0popula\u00e7\u00e3o de homens jovens, mas muito doentes, com uma alta presen\u00e7a de indicadores de risco cardiovascular como tabagismo e obesidade.<\/p>\n<p>S\u00e3o pessoas que pelas caracter\u00edsticas de seu trabalho possuem h\u00e1bitos alimentares pouco saud\u00e1veis e s\u00e3o tamb\u00e9m sedent\u00e1rias. Al\u00e9m disso, constatamos que os condutores eram roncadores habituais e possu\u00edam maiores probabilidades de sofrer um acidente ou quase acidente em sua jornada laboral em compara\u00e7\u00e3o com indiv\u00edduos n\u00e3o roncadores.<\/p>\n<p>A sonol\u00eancia diurna era aspecto frequente, mais de 40% sentia-se sonolento enquanto conduzia. A maioria dos motoristas afirmou que, ao perceberem sono na estrada, paravam para descansar; entretanto, havia em torno de 30% que adotava condutas absolutamente ineficazes para combater a sonol\u00eancia, por exemplo, fumar, escutar m\u00fasica em volume alto na cabine, resfriar o autom\u00f3vel, ingerir bebidas refrescantes, etc.<\/p>\n<p>Lamentavelmente a d\u00edvida de sono paga-se dormindo, portanto, tais medidas s\u00e3o pouco eficientes para combater o sono ao volante.<\/p>\n<p>Foi uma pesquisa muito interessante, participaram mais de 800 motoristas, estudados em seu pr\u00f3prio local de trabalho e desenvolveu-se um question\u00e1rio estruturado. Foi o primeiro trabalho de larga escala sobre o tema no pa\u00eds e os resultados foram publicados pela revista <em>SLEEP<\/em>.<\/p>\n<p>Alguns anos mais tarde, trabalhamos com a <em>Uni\u00f3n de Tranviarios Automotor<\/em>, entidade sindical que engloba motoristas do transporte p\u00fablico de passageiros. Foram inquiridos cerca de dois mil condutores de transporte p\u00fablico de passageiros que trabalhavam na cidade de Buenos Aires e na\u00a0\u00c1rea Metropolitana. Encontramos, novamente, que a quantidade de horas de sono dos motoristas era insuficiente e que eram em geral pessoas obesas e com comorbilidade cardiovascular. A preval\u00eancia de risco de apneia do sono estava presente em 55% dos entrevistados da amostragem.<\/p>\n<p>Constatou-se que aqueles que trabalhavam no turno da manh\u00e3 dormiam uma hora a menos em compara\u00e7\u00e3o aos colegas que trabalhavam no turno da tarde. Portanto, os motoristas do turno matutino dormiam, cronicamente, uma hora a menos que os companheiros do hor\u00e1rio vespertino. Os primeiros apresentaram uma deteriora\u00e7\u00e3o maior nos n\u00edveis de aten\u00e7\u00e3o, medidos atrav\u00e9s de um teste muito simples de ser realizado e muito confi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dessa maneira, os empregados que cumpriam o hor\u00e1rio pela manh\u00e3 apresentaram uma deteriora\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o a verificada entre os motoristas do turno da tarde. Essas medi\u00e7\u00f5es objetivas que realizamos em um grupo menor de motoristas, inclu\u00edam actigraf\u00eda durante 5 noites, medica\u00e7\u00f5es de cortisol no in\u00edcio e ao final da jornada de trabalho e um estudo sobre a varia\u00e7\u00e3o da frequ\u00eancia card\u00edaca.<\/p>\n<p>Por fim, realizamos um terceiro estudo e nele nos debru\u00e7amos sobre a solicitude da Superintend\u00eancia de Riscos do Trabalho, recolhemos uma amostra de motoristas que dirigiam por grandes dist\u00e2ncias e que levavam passageiros para as distintas prov\u00edncias da Rep\u00fablica Argentina.<\/p>\n<p>Neste caso, realizamos novamente medi\u00e7\u00f5es objetivas e corroboramos exatamente o mesmo resultado constatado anteriormente entre os motoristas de curta dist\u00e2ncia: que as horas de sono s\u00e3o muito escassas, que as jornadas trabalhistas s\u00e3o muito prolongadas e, assim, a aten\u00e7\u00e3o deteriora-se precocemente nos motoristas, particularmente, na viagem de volta.<\/p>\n<p><strong>NN: Uma pergunta, como era feito o estudo do n\u00edvel de aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC: <\/strong>Sim, o n\u00edvel de aten\u00e7\u00e3o avaliava-se com uma prova similar a um teste de vigil\u00e2ncia psicomotora<strong>. <\/strong>O teste consiste no uso de um laptop posto na frente do motorista avaliado, enquanto este n\u00e3o est\u00e1 dirigindo, mas est\u00e1 sentado ao lado de outro condutor. Em diferentes momentos, ao longo do per\u00edodo normal de uma jornada de trabalho, aparecer\u00e1 na tela do computador uma sequ\u00eancia de n\u00fameros e no momento em que estes caracteres param, o sujeito deve tocar qualquer tecla do laptop; o tempo que o indiv\u00edduo tarda entre notar que a sequ\u00eancia de n\u00fameros parou e pressionar qualquer tecla representa o tempo de rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a jornada de trabalho prolonga-se, observamos que o tempo de rea\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aumenta. Ou seja, a habilidade para responder a est\u00edmulos inesperados, como poderiam ser os casos reais de um animal que cruzasse a rota, outro ve\u00edculo que fizesse uma manobra inesperada e, ainda, que um pedestre cruzasse bruscamente o caminho, \u00e9 deteriorada. Portanto, o tempo de rea\u00e7\u00e3o para evitar qualquer um destes acidentes \u00e9 prejudicado.<\/p>\n<p><strong>NN: Doutor, o senhor acredita que esses profissionais devem ter um acompanhamento mais de perto quando se trata de transtornos do sono?<\/strong><\/p>\n<p><strong>DC:<\/strong> Na verdade, a sociedade deveria estar ciente que a quantidade de horas que todos n\u00f3s dormimos \u00e9 abaixo do exigido por nossas necessidades hist\u00f3ricas; nos \u00faltimos cinquenta anos n\u00f3s perdemos 25% das nossas horas de sono. Este \u00e9 um dado universal e enquetes realizadas por diferentes\u00a0organiza\u00e7\u00f5es demonstram que, tanto no hemisf\u00e9rio norte quanto no hemisf\u00e9rio sul, existe uma d\u00edvida de sono de aproximadamente dez horas.<\/p>\n<p>A jornada trabalhista \u00e9 cada vez mais prolongada e existem fortes evid\u00eancias que sustentam que uma pessoa acordada durante mais de quinze horas tem a mesma possibilidade de cometer um erro em um simulador de dire\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo que ingeriu a quantidade m\u00e1xima de \u00e1lcool permitida por lei, ou seja, a pessoa que permanece dezesseis horas sem dormir equipara-se a algu\u00e9m que ingeriu os 0,05 gramas por litro de \u00e1lcool permitidos na lei argentina. Obviamente, um motorista profissional deveria ter uma quantidade nula de \u00e1lcool no sangue, mas o que estou tentando dizer \u00e9 que a restri\u00e7\u00e3o de horas de sono produz a mesma deteriora\u00e7\u00e3o cognitiva que ingerir n\u00edveis de \u00e1lcool acima do que \u00e9 permitido pela lei.<\/p>\n<p>Evidentemente, o sono deve ser valorizado na sociedade e, particularmente, nas pessoas de maior exposi\u00e7\u00e3o a riscos como, por exemplo, motoristas profissionais tanto de carga quanto de passageiros. Obviamente, devem ser promovidas campanhas educacionais para que o sono comece a ser respeitado, tanto pelos trabalhadores quanto pelas empresas que contratam esses indiv\u00edduos e tamb\u00e9m pelas entidades reguladoras que fiscalizam as jornadas trabalhistas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso ter consci\u00eancia de que existem enfermidades como a s\u00edndrome da apneia do sono, que deterioram a qualidade do descanso. Doen\u00e7a esta que acomete, principalmente, a popula\u00e7\u00e3o masculina, em particular, homens que exer\u00e7am uma atividade sedent\u00e1ria como \u00e9 conduzir ve\u00edculos. A s\u00edndrome da apneia do sono \u00e9 conhecida como uma patologia que aumenta os acidentes rodovi\u00e1rios. Entretanto, quando o dist\u00farbio \u00e9 devidamente detectado e tratado permite aos indiv\u00edduos retornarem a vida ativa e profissional sem acarretar riscos para si ou para\u00a0terceiros.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dr. Daniel Perez Chada, Buenos Aires - Argentina\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pRLL5LJmc4M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neurovirtual News: Doutor, o senhor poderia nos contar um pouco sobre sua trajet\u00f3ria? 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